Wednesday, December 28, 2011

Sushi

Sushi



Texto: Rafael Pesce
Fotografia: João Castelo Branco*
*Estrelando: Digão Duarte
produção: Fabiano Vianna / Raquel Deliberali / Nina Giusti Galiano

Publicado originalmente na LAMA http://revistalama.blogspot.com

A caçada começava a noite. A roleta das oportunidades girava constantemente para Marcelo, jovem de 22 anos que nutria dois prazeres na vida: a culinária e principalmente as mulheres. Não era incomum usar uma das paixões para encontrar a outra. Como um autêntico desbravador, vagava pela selva de restaurantes em busca de boa comida e uma desejável companhia. O Watanabi, um dos mais famosos restaurantes japoneses da cidade, era um dos locais favoritos do rapaz. Incontáveis vezes o estabelecimento serviu de covil para o conquistador, mas nunca uma presa havia causado tanto impacto como a nova garçonete, Akemi, uma linda oriental de traços fortes e olhar penetrante.
Tudo aconteceu em uma noite gelada, com uma fina garoa que insistia em cair. Akemi – brilhante beleza, em japonês – trabalhava a apenas uma semana no Watanabi. Marcelo estava sentado em uma mesa no fundo, em um lugar onde pudesse observar a todos, ao mesmo em que passava despercebido. Devido ao clima nada convidativo, poucas pessoas se arriscaram a sair de casa. Talvez seja por isso, que ao invés de observar vulneráveis clientes, tenha notado Akemi. Após degustar uma rodada de Temakis e Chisahis, chamou-a discretamente:
- Mais alguma coisa senhor? – Falou a sorridente garçonete, exalando simpatia.
- Não. Só gostaria de dizer que você é linda! – Respondeu o confiante galanteador.
Após pedir a conta, para a alegria de Marcelo, um número de telefone constava no verso.
Não demorou muito para um encontro ser marcado. Para não parecer tão precipitado, três dias se passaram até a ligação. Na noite seguinte os dois se encontraram em um local reservado, a saída lateral do restaurante. Ao ver Akemi usando um vestido extremamente provocante, toda cautela usada no telefonema se foi, deixando os instintos mais primitivos do homem tomarem conta. Agarrou-a ali mesmo. Os beijos, carinhos e apertões já duravam alguns minutos, quando foram interrompidos por uma pequena picada. E foi então que...
Marcelo acordou assustado. Ainda um pouco grogue, viu que estava amarrado em uma cadeira, preso em uma espécie de calabouço. As paredes eram pintadas com diversas inscrições japonesas, indecifráveis para um simples ocidental. Marcelo tentou se recuperar do susto e pensou em tudo que tinha acontecido. Apenas se lembrava dos beijos e depois um grande blecaute. Para sorte do rapaz as cordas que o prendiam não estavam muito apertadas. Não demorou muito para ele se livrar daquele imbróglio. A porta da suposta cela estava destrancada, do outro lado um corredor seguia por aproximadamente 150 metros. Atravessou correndo aquele trecho, sentindo as imperfeições do chão de pedra castigarem seus pés descalços. No fim se deparou com outra porta. O silêncio, que até aquele momento se fazia presente, foi quebrado por uma série de grunhidos que vinham do cômodo seguinte. Voltar para o calabouço ou encarar o desconhecido? Essa era a dúvida de Marcelo. Resolveu seguir em frente e abriu a porta...
Não era um simples aposento. O que o jovem vislumbrava a sua frente era um verdadeiro salão, colossal, com uma ornamentação oriental que fazia Marcelo se sentir em outro século. Clic! Marcelo olhou para trás e viu que a porta por qual entrara estava trancada. Agora só podia continuar em frente. Os barulhos persistiam, porém o salão aparentava estar deserto. Infeliz engano. Abruptamente, as sombras que escondiam a origem dos grunhidos desapareceram, e delas eles saíram: mortos-vivos, seres em decomposição, arrastando-se lentamente em direção a ele. Porém, não eram simples zumbis. Aquela dúzia de devoradores de carne estava trajada com roupas samurais, um pequeno exército de Samurais-Zumbis! Não queria acreditar naquilo, sempre gostou de filmes de terror, mas jamais imaginou vivenciar um. A partir dali um verdadeiro jogo de caça começou, mas dessa vez a presa era ele.
Zumbis são seres lentos, quando sozinhos não são assustadores, sendo facilmente abatidos. Mas no momento em que uma horda se junta, a situação é bem diferente. Marcelo olhou para os lados, procurando algo que pudesse ajudá-lo. Para sorte dele, parte da decoração era composta por antigas espadas samurais, a arma ideal para um combate homem x morto-vivo, afinal, lâminas não precisam ser recarregadas. Munido de sua espada, esperou pelo embate. O primeiro zumbi perdeu a cabeça, decepada com um golpe perfeito e limpo. Os próximos dois tiveram braços e pernas arrancadas, o que permitiu que Marcelo procurasse por alguma saída. Depois de observar por alguns segundos, viu uma outra porta, localizada em um ponto crítico, onde a maioria dos zumbis se encontrava. Seria impossível matar o grupo restante, a situação requeria o uso de estratégia. Marcelo deslocou-se para o lado oposto, promovendo um berreiro para chamar a atenção dos errantes. Enquanto a horda se aproximava vagarosamente, um flanco vazio se apresentava, a rota de fuga perfeita. Marcelo correu, correu como nunca tinha feito na vida, evitando qualquer tentativa de mordida. Ainda ofegante abriu o que pensava ser a saída para a liberdade.
O que se viu foi uma forte luz branca. Seriam os raios de sol? Não deu tempo para pensar nisso. Ao abrir a porta sentiu uma lâmina perfurar o coração. Caiu ajoelhado no chão, com o sangue esvaindo-se do peito. Antes dos olhos se fecharem viu Akemi, segurando uma espada na mão e às gargalhadas enunciando: sushi para zumbis não é feito de peixe!

Saturday, March 05, 2011

Tentou pular o carnaval em Curitiba e acabou preso.




Aqui vemos o Wella, um dos sócios do bar "Ao Distinto Cavalheiro" que foi detido por "perturbação da paz". Isso aconteceu no dia 3, durante o tradicional "Grito de Carnaval" do bar.

Tuesday, December 14, 2010

Animação sem animação

Segundo a wikipedia (sic) Lev Yilmaz, ao ver Mystery of Picasso teve a idéia de uma série de animações sem animação. Sem grandes elucubrações, e seja lá quem a inventou, acho que essa técnica dá pano pra manga.

Mystery of Picasso


Of Mere Existence
"Roadtrip" Tales

Wednesday, December 08, 2010

O corte do alfaiate - teaser trailer

O corte do Alfaiate - teaser trailer from Joao Castelo Branco on Vimeo.

O corte do alfaiate é um documentário etnográfico sobre a prática da alfaiataria. Ele parte do trabalho do artesão, de suas técnicas e de seus saberes para abordar os valores incorporados e expressos na confecção de ternos sob medida. Entre os paletós e calças que são riscados, cortados e montados, o filme trata deste ofício e de suas transformações, na tensão entre moda e tradição, inovações tecnológicas e manutenção da técnica artesanal. Um oficio permeado pelas dificuldades de transmissão de seus saberes e pela falta de mão de obra especializada, entre uma estrutura de trabalho que remete às antigas corporações de ofício e os profissionais autônomos dos dias de hoje.

Thursday, June 03, 2010

Alô? Tem um monstro no meu HD.



-Ghost Busters! Posso ajudar?
-Oi. Tenho um problema. 
-Pois não...
-Tem um monstro aqui em casa.
-Olha, nossa especialidade são fantasmas. Mas já tratamos de monstros também.
-Acho que o monstro aqui de casa até é um fantasma.
-É comum que as pessoas confundam. Só indo ai pra dar uma olhada. Fazemos um orçamento sem compromisso.
-Tá. Fica na XV, perto da Reitoria. Vocês podem vir ainda hoje?
-Hum... deixa eu ver... é grande o bicho? Onde ele tá escondido?
-Er... não sei bem o tamanho... mas sei que ele tá lá.
-lá aonde?
-no meu HD.
-O que?! No HD do computador?!
-pois é.
-Olha aqui, meu Senhor, esses bichos se escondem debaixo da cama, dentro do baú de quinquilharias, em armários, na dispensa, no porão, no sótão. Até em em caixas de papelão, dessas de fotografias. Mas em HD não sei não.
-Ele tá lá sim. Eu sei que tá.
-Ele deve estar dentro do gabinete do computador. Lá tem mais espaço pra ele ficar. Eles gostam desses buracos escondidos, de onde podem espreitar sem serem vistos.
-Moço, eu tenho laptop, e o monstro está no HD EXTERNO. Ele grita toda vez que eu mexo numa pasta dentro dos meus documentos.
-Isso tá parecendo um vírus... 
-Você acha que eu tô de brincadeira!? Tem uma droga de monstro, fantasma, s e i   l á o que, que tá assombrando o meu HD!!!  
-Então tá. O négócio é o seguinte: os americanos descobriram que essa história de fantasma e de monstro a gente trata com feixes de prótons. A gente traz as armas dos EUA. Você já deve ter visto na televisão. Eu vou até ai, dou um bom tiro no seu HD e pronto. 
-E os dados que estão lá dentro?!
-Meu Senhor, o seu HD vai FRITAR. A gente mata o monstro, mas seu HD já era. Sei lá, tenta fazer um backup antes.
-Eu não tenho mais coragem de abrir aquilo. Mas eu preciso dos meus dados. Não tem outro jeito? A gente tenta tirar ele lá de dentro primeiro, então você vai lá e pimba!    
-Aaaah não, você não sabe do que eles são capazes. Você tira ele de lá e sobra pra mim. Não mesmo. Se ele tá lá dentro eu frito o HD, ou nada feito.
-Mas é você, moço, o especialista. E pelo que vi na lista telefonica não tem outro por aqui. 
-Não tem outro não. Sou só eu mesmo. Mas não faço. Não corro riscos no meu trabalho. 
-Mas ... e os meus dados?
-Olha aqui, se o senhor está com problemas no seu HD eu sugiro que procure um técnico de informática. Tudo que eu posso fazer é fritar o bicho.
-tá.
-Qual é mesmo o endereço?
-Não há outro jeito mesmo? Como as pessoas faziam quando não existiam os protóns?
-Também não existia HD nessa época.
-...
-... Antigamente as pessoas conviviam com os bichos. Diz que tinha gente que até domava eles. Tinham outros que iam parar no hospício também.
-Tá.
-O endereço, qual é?
-Não, não. Vou domar o bicho.
-O que? O Senhor ficou louco?
-Não. Vou domar o bicho. Brigado, moço, pela dica. 
-Bom, o senhor é quem sabe. Qualquer coisa liga que eu vou ai e frito o coisa ruim. É vapt vupt.  
-Te agradeço. Tchau. Obrigado.
-Obrigado o Senhor.



Friday, May 07, 2010

O estado da merda:


Este post é parecido com anterior... mas é só para atualizar a história. Pra quem não leu ai vai:


Segue ai embaixo a matéria da Veja do último domingo intitulada: "A farra da antropologia oportunista". Na qual os caras inventam dados fantasiosos, completamente absurdos para deslegitimar o direito indigena e quilombola à terra, garantido pela constituição. Entre os delírios conservadores estão: "Áreas de preservação ecológica, reservas indígenas e supostos antigos quilombos abarcam, hoje, 77,6% da extensão do Brasil. Se a conta incluir também os assentamentos de reforma agrária, as cidades, os portos, as estradas e outras obras de infraestrutura, o total alcança 90,6% do território nacional". Qualquer idiota que ja tenha viajado mais de 100 km em qualquer região do brasil pode constatar que se trata de uma fantasia colossal. Além do fato dos filhos da puta terem inventado um monte de absurdos e colocado entre aspas na boca do Antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, um cara que fala justo o contrário.

A famigerada:
http://alertabrasiltextos.blogspot.com/2010/05/farra-da-antropologia-oportunista.html

Uma matéria sobre a o posicionamento da Veja e segunda resposta do Eduardo Viveiros de Castro, citado como fonte da matéria (a primeira está no post anterior):
http://www.brasilautogestionario.org/2010/05/05/viveiros-de-castro-desmente-a-revista-veja/

Além das respostas de Viveiros de Castro, também se posionaram o ex-presidente da FUNAI Mércio Pereira Gomes:
http://merciogomes.blogspot.com/2010/05/resposta-materia-da-veja-farra-da.html

E a da Associação Brasileira de Antropologia, com um texto muito bom do grande João Pacheco pode ser lida logo abaixo no post anterior ou neste PDF encontrado no site da ABA:http://www.abant.org.br/conteudo/005COMISSOESGTS/Documentos%20da%20CAI/NotaCAI-ABA.pdf

Thursday, May 06, 2010

Eles passaram do ponto

Com uma série afirmações absurdas, mentiras sem qualquer fundamento e uma série de apropriações escusas de falas de antropólogos, a revista Veja passa do ponto na afronta contra os direitos das populações indígenas e quilombolas. Segue o link para a matéria:

http://alertabrasiltextos.blogspot.com/2010/05/farra-da-antropologia-oportunista.html

A resposta de Eduardo Viveiros de Castro, citado na matéria:

Ao Editores da revista Veja:


Na matéria “A farra da antropologia oportunista” (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), seus autores colocam em minha boca a seguinte afirmação: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original” .


Gostaria de saber quando e a quem eu disse isso, uma vez que (1) nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma. Na verdade, a frase a mim mentirosamente atribuída contradiz o espírito de todas declarações que já tive ocasião de fazer sobre o tema. Assim sendo, cabe perguntar o que mais existiria de “montado” ou de simplesmente inventado na matéria. A qual, se me permitem a opinião, achei repugnante.


Grato pela atenção,
Eduardo Viveiros de Castro
Antropólogo – UFRJ


E a resposta da Associação Brasileira de Antropologia:

NOTA DA COMISSÃO DE ASSUNTOS INDÍGENAS: 

A reportagem divulgada pelo último número da revista Veja, provocativamente intitulada "Farra da Antropologia oportunista", acarretou uma ampla e profunda indignação entre os antropólogos, especialmente aqueles que pesquisam e trabalham com temas relacionados aos povos indígenas. Dados quantitativos inteiramente equivocados e fantasiosos (como o de que menos de 10% das terras estariam livres para usos econômicos, pois 90% estariam em mãos de indígenas, quilombolas e unidades ambientais!!!) conjugam-se à sistemática deformação da atuação dos antropólogos em processos administrativos e jurídicos relativos a definição de terras indígenas. 
Afirmações como a de que laudos e perícias seriam encomendados pela FUNAI a antropólogos das ONG's e pagos em função do número de indígenas e terras "identificadas" (!) são obviamente falsas e irresponsáveis. As perícias são contratações realizadas pelos juízes visando subsidiar técnica e cientificamente os casos em exame, como quaisquer outras perícias usuais em procedimentos legais. Para isto o juiz seleciona currículos e se apóia na experiência da PGR e em consultas a ABA para a indicação de profissionais habilitados. Quando a FUNAI seleciona antropólogos para trabalhos antropológicos o faz seguindo os procedimentos e cautelas da administração pública. Os profissionais que realizam tais tarefas foram todos formados e treinados nas universidades e programas de pós-graduação existentes no país, como parte integrante do sistema brasileiro de ciência e tecnologia. A imagem que a reportagem tenta criar da política indigenista como uma verdadeira terra de ninguém, ao sabor do arbítrio e das negociatas, é um absurdo completo e tem apenas por finalidade deslegitimar o direito de coletividades anteriormente subalternizadas e marginalizadas. 
Não há qualquer esforço em ser analítico, em ouvir os argumentos dos que ali foram violentamente criticados e ridicularizados. A maneira insultuosa com que são referidas diversas lideranças indígenas e quilombolas, bem como truncadas as suas declarações, também surpreende e causa revolta. Sub-títulos como "os novos canibais", "macumbeiros de cocar", "teatrinho na praia", "made in Paraguai", "os carambolas", explicitam o desprezo e o preconceito com que foram tratadas tais pessoas. Enquanto nas criticas aos antropólogos raramente são mencionados nomes (possivelmente para não gerar demandas por direito de resposta), para os indígenas o tratamento ultrajante é na maioria das vezes individualizado e a pessoa agredida abertamente identificada. Algumas vezes até isto vem acompanhado de foto.
A linguagem utilizada é unicamente acusatória, servindo-se extensamente da chacota, da difamação e do desrespeito. As diversas situações abordadas foram tratadas com extrema superficialidade, as descrições de fatos assim como a colocação de adjetivos ocorreram sempre de modo totalmente genérico e descontextualizado, sem qualquer indicação de fontes. Um dos antropólogos citado como supostamente endossando o ponto de vista dos autores da reportagem afirmou taxativamente que não concorda e jamais disse o que a revista lhe atribuiu, considerando a matéria "repugnante". O outro, que foi presidente da FUNAI por 4 anos, critica duramente a matéria e destaca igualmente que a citação dele feita corresponde a "uma frase impronunciada" e de "sentido desvirtuante" de sua própria visão. 
A agressão sofrida pelos antropólogos não é de maneira alguma nova nem os personagens envolvidos são desconhecidos, isto apenas considerando os últimos anos. O antropólogo Stephen Baines em 2006 concedeu uma longa entrevista a Veja sobre os índios Waimiri-Atroari, população sobre a qual escrevera anos antes sua tese de doutoramento. A matéria não saiu, mas poucos meses depois, uma reportagem intitulada "Os Falsos Índios", publicada em 29 de março de 2006, defendendo claramente os interesses das grandes mineradoras e empresas hidroelétricas em terras indígenas, inverteu de maneira grosseira as declarações do antropólogo (pg. 87). Apesar dos insistentes pedidos do antropólogo para retificação, sua carta de esclarecimento jamais foi publicada pela revista. O autor da entrevista não publicada e da reportagem era o sr. Leonardo Coutinho, um dos autores da matéria divulgada na última semana pelo mesmo meio de comunicação. 
Em 14-03-2007, na edição 1999, entre as pgs. 56 e 58, uma nova invectiva contra os indígenas foi realizada pela Veja, agora visando o povo Guarani e tendo como título "Made in Paraguai - A Funai tenta demarcar área de Santa Catarina para índios paraguaios, enquanto os do Brasil morrem de fome". O autor era José Edward, parceiro de Leonardo Coutinho, na matéria citada no parágrafo anterior. Curiosamente um sub-título foi repetido na matéria da semana passada - "Made In Paraguay". O então presidente da ABA, Luis Roberto Cardoso de Oliveira, solicitou o direito de resposta e encaminhou um texto à revista, que nem sequer lhe respondeu. 
Poucos meses depois a revista Veja, em sua edição 2021, voltou à carga com grande sensacionalismo. A matéria de 15-08-2007 era intitulada "Crimes na Floresta – Muitas tribos brasileiras ainda matam crianças e a Funai nada faz para impedir o infanticídio" ( pgs. 104-106). O sub-título diz explicitamente que o infanticídio não teria sido abandonado pelos indígenas em razão do "apoio de antropólogos e a tolerância da Funai." A matéria novamente foi assinada pelo mesmo Leonardo Coutinho. Novamente o protesto da ABA foi ignorado pela revista e pode circular apenas através do site da entidade. 
Em suma, jornalismo opinativo não pode significar um exercício impune da mentira nem práticas sistemáticas de detratação sem admissão de direito de resposta. O mérito de uma opinião decorre de informação qualificada, de isenção e equilíbrio. Ao menos no que concerne aos indígenas as matérias elaboradas pela Veja, apenas requentam informações velhas, descontextualizadas e superficiais, assumindo as características de uma campanha, orquestrada sempre pelos mesmos figurantes, que procuram pela reiteração inculcar posturas preconceituosas na opinião pública. 
Numa análise minuciosa desta revista, realizada em seu site, o jornalista Luis Nassif fala de uma perigosa proximidade entre lobistas e repórteres nas revistas classificadas como do estilo "neocon". A presença de "reporteres de dossier" é uma outra característica deste tipo de revista. A luz dos comentários deste conceituado jornalista a lista de situações onde a condição de indígenas é sistematicamente questionada não deixa de ser bastante significativa. Ai aparecem os Anacés, que vivem no município de São Gonçalo do Amarante (onde está o porto de Pecem, no Ceará); os Guarani-M'bià, confrontados por uma proposta do mega-investidor Eike Batista de construção de um grande porto em Peruíbe, São Paulo; e os mesmos Guaranis de Morro dos Cavalos (SC), que lutam contra interesses poderosos, que os qualificam como "paraguaios" (tal como os seus parentes Kayowá e Nandevá do Mato Grosso do Sul, em confronto com o agro-negócio pelo reconhecimento de suas terras). 
Como o objetivo último é enfraquecer os direitos indígenas (em disputas concretas com interesses privados), os alvos centrais destes ataques tornam-se os antropólogos, os líderes indígenas e os seus aliados (a matéria cita o Conselho Indigenista Missionário/CIMI por várias vezes e sempre de forma igualmente desrespeitosa e inadequada).
É neste sentido que a CAI vem expressar sua posição quanto a necessidade de uma responsabilização legal dos praticantes de tal jornalismo, processando-os por danos morais e difamação. Neste momento a Presidência da ABA está em contato com seus assessores no campo jurídico visando definir a estratégia processual de intervenção a seguir. 
Dada a assimetria de recursos existentes, contamos com a mobilização dos antropólogos e de todos que se preocupam com a defesa dos direitos indígenas para, através de sites, listas na Internet, discussões e publicações variadas, vir a contribuir para o esclarecimento da opinião pública, anulando a ação nefasta das matérias mentirosas acima mencionadas. Que não devem ser vistas como episódios isolados, mas como manifestações de um poder abusivo que pretende inviabilizar o cumprimento de direitos constitucionais, abafando as vozes das coletividades subalternizadas e cerceando o livre debate e a reflexão dos cidadãos. No que toca aos indígenas em especial a Veja tem exercitado com inteira impunidade o direito de desinformar a opinião pública, realimentar velhos estigmas e preconceitos, e inculcar argumentos de encomenda que não resistem a qualquer exame ou discussão. 

João Pacheco de Oliveira
Coordenador da Comissão de Assuntos Indígenas/CAI