Chego de férias em Curitiba e a vida começa a voltar ao ritmo do cotidiano. Reuniões mil, contas pra pagar, projetos que andam, outros que não saem do lugar. Vocês sabem que funciono assim, faço projetos mil, a maioria morre antes de começar, alguns dão certo.
Eis que tenho um projeto com uma amiga, acho que vai dar certo (sempre acho). Logo no início do ano ela me mandou um email dizendo que tinha boas notícias e que gostaria de marcar um café para rediscutirmos o famigerado. Eu disse para ela marcar uma data, pois eu estaria em casa durante toda a semana; ela respondeu com algumas possibilidades ... ai já se fora uma semana (eu demorei um pouco para respondê-la).
Estávamos nesse pé.
***
Minha analista ligou ontem (segunda-feira, 11/01) para marcarmos a primeira sessão do ano, como haviamos combinado. Marcamos as 5 de hoje.
Vinha do Pilarzinho, então deixei o carro na igreja, em frente aos coxas. Desci a Ubaldino com uma moça um pouco a frente, que parecia ser a tal amiga. De fato era ela. Eu sabia que era, mas tinha uma duvidazinha, com a qual meu lado curitibano se uniu para pensar: "nem sei se é ela mesmo, além disso estou em cima da hora para a analise, e eu preciso falar com ela, se eu parar para conversar vou chegar atrasado. Ela vai continuar e vou entrar na clínica. Quando chegar em casa eu ligo pra ela".
Passos antes da entrada eu já quase a alcançava, e para o meu espanto ela também entrou! Nos encontramos na porta, nos cumprimentamos, sorrimos a boa coincidência, juntos apertamos o interfone amarelo, juntos subimos as escadas e sentamos na sala de espera. Marcava 16:57 no meu celular. Como era uma nova secretária eu logo disse:
-Tenho hora com a Ana.
Minha amiga arregalou os olhos, com uma mistura de espanto e constrangimento e falou baixinho:
- Er... eu tambem... devo ter confundido o horário.
-Quem sabe não fui eu... - respondi (sou bem capaz disso, já fiz várias vezes).
Pra piorar tudo a secretária emendou:
-Ela ainda está atendendo - com uma expressão de que ainda ia longe aquela sessão.
Nos olhamos com mais calma e o incomodo inicial se transformou numa espécie cumplicidade, numa empatia. Vi nos olhos dela aquele mesmo pedaço de parede, com aquela luminária engraçada que faz um reflexo no painel de acrílico do teto. Estava ali aquilo que vejo toda semana quando deito no divã. Imaginei nela aquela mesma voz que vem de algum lugar entre a sala, a minha cabeça e o além.
Rimos da situação e fizemos nossa reunião ali mesmo.
Dali um bom tempo sobe nossa analista, nos cumprimenta e a chama. "Fui eu quem errei"- pensei. Minutos depois sai minha amiga da sala, levanta os ombros, e me diz pra entrar:
-Fui mesmo eu a errar. Marcamos para o final da semana um café? Sexta as 2 está bom? - perguntou.
Acenei que sim e ela se foi.
Originalmente postado na sala de espera