Sunday, February 14, 2010

Piracicaba e fotografia

Um mês antes de ir embora de Piracicaba eu comprei vários rolos de Tri-x, que é o clássico dos filmes PB, e até a data da partida andei com com minha câmera a tira colo fotografando. Nessa época eu já tinha ganhado um laboratório PB do meu pai, mas ainda não sabia usá-lo direito. Essa última leva de filmes eu ainda mandei revelar fora, quando cheguei em Curirtiba. Eu tinha 17 anos.

Eu e meu irmão chegamos para o início das aulas no colégio Medianeira. Ano de vestibular. Mas a cabeça ainda estava longe. Para o primeiro feriado que haveria pela frente,  acho que foi uma Semana Santa, eu planejei ir para Piracicaba. Ainda estava deslumbrado com as fotos que tinha feitos dos amigos e queria mais. Como precisava aprender de uma vez a usar meu laboratório, comprei uma lata de Tri-x e um rebobinador para fazer os rolinhos eu mesmo em casa. Deu quase 20 rolos (de 36 fotos cada). Peguei minha câmera os filmes e voltei para Piracicaba.

Eu costumo lembrar de tudo que fotografo. Não só da cena, mas do que aconteceu antes e depois. No entanto, não sei bem porquê, mas quase não fotografei por lá dessa vez.  E também não me lembro bem o que aconteceu nessa viagem, nem o que fiz por lá. Deixar Piracicaba foi dos fatos mais fortes da adolescência, e as coisas que aconteceram nesse feriado se confundem com as lembranças dos anos que estive por lá. Me lembro de pensar o quanto tinha vivido ali, e quantas coisa mudaram em minha relação com a cidade nesses anos. Quantos círculos diferentes de amizades, quantos trajetos diferentes de bicicleta, dos dois apartamentos, bares diferentes, escola, capoeira, grupo de teatro, dois corais, drogas e rock 'n roll. Os amigos do início eram os da escola (carreguei eles até o ir embora), mas no final já andava mais com os amigos do teatro.

Fiz só um rolo e meio de Tri-x nesse feriado.

Cheguei em Ctba, acabei de fotografar o rolo e fui para o laboratório. Meu pai tinha me explicado como fazer havia tempos e eu ja tinha revelado uns filmes e feito umas cópias com ele. Ainda com medo eu peguei com um amigo a trilogia do Ansel Adams (A Cópia, O Negativo e a Câmera), que ainda nem existia traduzida para o português, mas me haviam dito que era o que tinha de melhor, e estudei. Os filmes de Piracicaba foram as primeiras cobaias.

A primeira experiência foi um fracasso. A revelação do filme até que foi razoável. Fiz exatamente como explicava no livro. Os problemas foram apenas alguns fotogramas manchados pelo encaixe errado na espiral do tanque. As cópias foram desastrosas. Nas primeiras tentativas tudo saiu velado, fotos pretas. Descobri que lâmpada do ampliador era mais forte do que deveria. Na seqüência percebi que o ampliador tinha um problema na lente do condensador. Entre idas e vindas à loja de fotografia do Seu Zé e da Dna. Irene,  e com muita paciência, vontade e dedicação resolvi os primeiros problemas. Mas as fotos continuavam veladas. Não mais pretas, mas ... acinzentadas, ruins. Levei uma semana batendo a cabeça até descobrir que o pior problema estava na lâmpada vermelha de segurança que ficava muito perto dos papeis, então eles velavam um pouquinho toda vez que eu abria os envelopes. Ainda assim, mesmo depois de corrigir todos os problemas técnicos, as cópias ainda eram bastante insatisfatórias. Foi o começo. Prometi para mim mesmo que um dia ainda faria cópias como as do Ansel Adams (pobre de mim e dele).

Há mais ou menos um mês tirei das caixas antigas essas fotos de Pira. Algumas com o Junior e com o Rodrigo, numa volta com o Puma conversível que ele tinha pegado escondido do namorado da mãe dele. Rodamos pela Vila Rezende, passamos na casa da Estela, namorada do Rodrigo, e na casa da Amanda amiga do teatro e da galera da Vila. Boa parte dos amigos moravam alí. Na primeira foto, a que bati a cabeça por semanas, estão Rodrigo e Junior no carro e Amanda logo ao lado. Guardei pelo menos umas dez cópias dessa foto, mas só achei três agora (depois de 12 anos). Cada uma com um tom de cinza velado diferente.















1 comentários:

Rita Loiola said...

que bonito, joão... não sabia que vc brincava de laboratório quando era adolescente, hehehe!